quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Sobre Protetores e Mentores

Quando vi pela primeira vez, fiquei me perguntando o que viria a ser isso de “protetor” no BDSM. Nunca havia ouvido falar, ao menos não nas listas. Continuo não sabendo exatamente o que eles tinham em mente – os desenvolvedores do fet e as comunidades BDSM de lá – quando incluíram essa... modalidade de relação. Sobre mentores, já havia presenciado alguns casos.

Quero falar então justamente sobre Protetores e Mentores, nesta ordem.

O que eu vou dizer não é uma regra, não é uma posição oficial, nem nada disso. É tudo fruto da minha imaginação, e o senso particular que eu faço sobre BDSM – eu deixo claro, para não parecer que estou pretendendo dar uma “versão oficial”, em realidade, se houver essa versão, eu gostaria muito de saber.

Como não tive acesso a nenhum tipo de postura consolidada sobre isso, o terreno está aberto pra elaboração criativa, e a possibilidade de novas formas litúrgicas. Esse material deve ser encarado não como regras, mas como um referencial – em qualquer meio social, as relações são tão mais harmoniosas e eficientes quanto mais claras e coesas são as bases que orientam todas as partes, e essa é a maior utilidade de uma noção compartilhada de liturgia no que tange a relação entre um grande grupo de pessoas. Essa é a contribuição que se deseja dar aqui.

Vamos ao que interesa.


Protetor

A função de protetor que me parece mais plausível seria análoga à de um “tutor”. Nós no BDSM não temos relação formal de filiação, então dá-se que o tutor é algum tipo de responsável e orientador na ausência de ascendentes familiares (tradicionalmente isso se aplicava a órfãos, por exemplo, e no “mundo BDSM” tecnicamente somos todos “órfãos”).

Desse modo, o protetorado me parece criar uma relação de, em primeiro lugar proteção o que é auto evidente, e em segundo, de orientação, e em terceiro, de mediador.

Para que isso tenha qualquer relevância prática, é necessário observar duas coisas.

a) Se não é para existir orientação e responsabilidade da parte do “protetor”, sua função é vazia de sentido; Afinal, para que ele serve então?
b) Se é para proteger, esclarecer e ser responsável por alguém, sem ter qualquer autoridade sobre os atos dessa pessoa, então é simplesmente inviável exercer a posição de “protetor”; Afinal, não faz sentido assumir responsabilidades sobre algo o qual não se pode exercer qualquer controle;

Isso é tão somente uma questão de bom senso.

Aqui começo a tanger uma questão colocada frequentemente, sobre o Protetor sentir-se no direito de exercer autoridade sobre o protegido. Em minha opinião pessoal, isso faz sentido sim. Um papel como o de protetor é um algo muito litúrgico, e essa noção de papéis tão cristalianos não deve ser estranha para quem se considera litúrgico e aprecia essa situação.

Naturalmente que, em determinadas ocasiões, um veto da parte do Protetor pode ir contra os interesses imediatos do protegido e esse pode sentir-se contrariado. Mas é algo também do bom senso que, se é para fazer apenas o que bem entender, para que alguém procura um “protetor”, isso é, uma relação de dependência e reverência? Aquele que considera absurdo acatar ao bom senso de outrém, na figura de protetor, obviamente não deveria procurar ter um.

Evidentemente isso também aborreceria caso um pretendente a Dono fosse vetado, porque o “protetor” em seu julgamento, entende que não será bom para seu protegido – todavia seja compreensível que essa pessoa se aborreça, ela precisa ter em mente que está pisando no território de outro Top, e portanto deve ser cordial e respeitoso.

Mas a função do Protetor, assim me parece, não deve ser uma de “Dono Freelance”. Retornando à analogia do Tutor (comum antigamente na sociedade), seria de certo modo uma relação “incestuosa” caso o Protetor use a sua relativa autoridade sobre o protegido como pretexto para satisfazer-se pessoalmente de seu dependente. Entendo que a motivação válida para ser um protetor seja uma de afinidade e afeto, e de autoridade benevolente e altruísta sobre o protegido – uma relação, portanto, essencialmente assexual no sentido “egóico” da palavra.

(É um tanto complicado falar em “assexual” e BDSM na mesma frase, porque BDSM é erótico mesmo quando não é propriamente sexual – genital. O BDSM trasncende o meramente sexual, e ao mesmo tempo, é erótico em toda sua extensão, portanto quando digo “assexual” quero dizer literalmente “genital”).

Ora, se for para dar-se a esse tipo de desfrute com o protegido, que assuma-se Dono então. Em tal situação, o referido Protetor estaria abusando de sua posição, e estaria o protegido em toda razão de sentir sua confiança traída, dadas intenções mascaradas do protetor.

Mas é no momento de encontrar um Dono para seu protegido, que a função do Protetor se torna mais delicada. Após ter contribuído para a formação de um escravo, e esclarecer-lhe sobre seus deveres e qual tratamentos e considerações esperar, deve ter fim um dia o período de ensinamento, e esse escravo deve encontrar um Dono para que realize seu potencial e encontre sua satisfação. Aqui entra o duplo papel de protetor e mediador – cabe ao Protetor dialogar com possíveis futuros Donos desse escravo, e zelar para que ele esteja sendo entregue em boas mãos – Zelo é uma palavra importante para definir o caráter da atividade de Protetor.

É muito discutível a extensão do poder de veto do Protetor sobre as escolhas do escravo. Por exemplo, o Protetor não tem poder efetivo para proibir o escravo de consentir em ser propriedade de um Dominador que ele desaprove, mas em vistas disso, ele tem sim o poder de abrir mão de seu papel de Protetor, de isentar-se de seus deveres em vistas à atitude insurgente do seu protegido. Em outras palavras, é plausível que ele “lave suas mãos”, e se limite a torcer pelo melhor resultado. Tal qual filhos, protegidos podem ser bastante rebeldes, e na impossibilidade de impôr efetivamente seu ponto de vista, resta apenas entregar o ex-protegido à própria sorte.

Após toda essa extensa – e talvez pedante – meditação, se tivesse que resumir o caráter, procedimento e pertinência do papel de Protetor, eu sintetizaria dessa maneira:

O Protetor é aquele Top que se compromete a uma relação altruísta de zelo, instrução e preparação de um escravo, usando de autoridade benevolente e disponibilizando ao escravo seu conhecimento sobre as relações de Dominação e submissão, tendo o escravo nele a figura de um tutor disposto a facilitar sua incursão ou reincursão no exercício da submissão. Tal relação é, por natureza, altruísta e assexual – todavia erótica – e baseada na afinidade e afeto pelo seu protegido,e sua recompensa é a satisfação derivada do exercício de seu papel.

Para atingir estes fins lhe cabe selecionar, proteger, instruir, orientar, disciplinar verbalmente ou por quaisquer meios necessários que não atentem contra a natureza de seu papel, e não traiam a confiança que lhe foi depositada.

A esta altura está claro que o Papel de protetor se dá em relações entre Dominadores e submissos. Mais adiante darei minha explicação sobre o porquê dessa distinção.



Sobre Mentores

Terminei a seção sobre protetorados estipulando que aquela noção é mais apropriada para Dom/sub. Cabe aqui agora dar um embasamento para essa noção.

Considero que a posição de protetor não é aplicável ao caso em que um Dominador encarrega-se do esclarecimento de outro, porque entende-se que tratam-se de dois iguais, e de certo modo, duas Pessoas em pleno e semelhante potencial em se tratando de BDSM.

Considera-se para o mesmo efeito que, todavia o escravo seja dotado de uma personalidade própria como toda pessoa humana, seu lugar na liturgia é o de uma Pessoa subordinada; suas decisões, condicionadas a uma vontade superior; de modo que no esquema vertical das relações BDSM, seu status possui limitações próprias de sua condição. É evidente que essa noção é alegórica, metafórica, e válida somente no contexto lúdico da Dominação.

Entende-se aqui que diferentemente do Protetor, que tem um papel de zelar entre outras coisas (definido em profundidade anteriormente), a relação de instrução entre dois Tops é melhor entendida como a de alguém que se propõe a facilitar o desenvolvimento de um igual, tal qual um mestre aceita um discípulo, que é alguém como ele próprio, mas a quem decide doar seus conhecimentos.

Acredito que no mentorado é que se pode ver melhor a beleza da liturgia. Ao adquirir um mentor, um Dominador serve-se do conhecimento deste que lhe dá esperando apenas bom uso, mas por sua vez, enaltece aquele que aceita para si um discípulo – é notável também que isso enaltece ao discípulo, que demonstra humildade em admitir que nem tudo sabe, mas está pronto a aprender com outrém.

O papel do Mentor é um de ajudar a lapidar o talento bruto de um outro Dominador, isso é, torná-lo mais capaz de exercer a Dominação. Por essa razão, entendo que não faz sentido um Dom ter protetores, e não faz sentido um escravo ter Mentores.

Mas o quê em realidade são as obrigações mútuas entre Mentor e mentorado?

Ao Mentor, compete destinar atenção ao mentorado e sanar-lhe dúvidas, demonstrar-lhe técnicas, dar a ele um aporte conceitual, e assegurar-se de que ele tenha condições de ser um Dominador eficiente e ético.

Ao mentorado, cabe fazer o melhor uso possível do que lhe foi ensinado, honrar ao seu professor, e observar sua conduta para que essa seja a mais apropriada, e por si só exalte a figura daquele que lhe destinou tanto esforço.

Se por um lado a natureza do papel do Protetor é uma quase paternal, o papel do Mentor é de natureza fraternal, como entre um irmão mais velho e um mais novo, onde o respeito se dá de forma horizontal, e este empenha-se ativamente fazer disponível a ele sua bagagem de vivências.

De modo geral entusiasta de ambas modalidades de interação.



Cordialmente,

Senhor Coltrane


A título de notas finais, é imperioso dizer que tanto o papel de Mentor como de Protetor incorrem em grandes responsabilidades; em uma conduta quase que sacerdotal; e que requer uma fibra ética e moral obstinada e uma retidão inabalável. É obviamente claro que tais ofícios não são para qualquer um, e cabe àqueles que se confiarem ao bom senso de um Protetor ou Mentor, usarem seu bom senso na hora de aceitar alguém para essa posição, e sim, rejeitar para esse encargo aqueles que usarem essa nobre atividade para realizar intentos obscuros e reprováveis. Ao fim e ao cabo, um protegido ou mentorado é o responsável último por si e pode e deve afastar-se de pessoas que demonstrem caráter vacilante na hora de desempenhar estes papéis.

Em resumo, poucos são capazes de exercer essas atividades, mas aqueles que o são, tornam possíveis grandes e extremamente recompensadoras experiências para todos.

2 comentários:

Lets de Assis disse...

É fantástico... não só porque concordo com o que escreveste, mas porque conseguiste resumir tudo o que penso acerca do assunto.
As responsabilidades ao meu ver são maiores que os louros, inclusive.
Parabéns! Seguindo...
Bjks da Vulgata

Lets de Assis disse...

Em tempo, há meses venho acompanhando teus comentários no fet e acho imperativo elogiar tua lucidez