Quero falar então justamente sobre Protetores e Mentores, nesta ordem.
O que eu vou dizer não é uma regra, não é uma posição oficial, nem nada disso. É tudo fruto da minha imaginação, e o senso particular que eu faço sobre BDSM – eu deixo claro, para não parecer que estou pretendendo dar uma “versão oficial”, em realidade, se houver essa versão, eu gostaria muito de saber.
Como não tive acesso a nenhum tipo de postura consolidada sobre isso, o terreno está aberto pra elaboração criativa, e a possibilidade de novas formas litúrgicas. Esse material deve ser encarado não como regras, mas como um referencial – em qualquer meio social, as relações são tão mais harmoniosas e eficientes quanto mais claras e coesas são as bases que orientam todas as partes, e essa é a maior utilidade de uma noção compartilhada de liturgia no que tange a relação entre um grande grupo de pessoas. Essa é a contribuição que se deseja dar aqui.
Vamos ao que interesa.
Protetor
A função de protetor que me parece mais plausível seria análoga à de um “tutor”. Nós no BDSM não temos relação formal de filiação, então dá-se que o tutor é algum tipo de responsável e orientador na ausência de ascendentes familiares (tradicionalmente isso se aplicava a órfãos, por exemplo, e no “mundo BDSM” tecnicamente somos todos “órfãos”).
Desse modo, o protetorado me parece criar uma relação de, em primeiro lugar proteção o que é auto evidente, e em segundo, de orientação, e em terceiro, de mediador.
Para que isso tenha qualquer relevância prática, é necessário observar duas coisas.
a) Se não é para existir orientação e responsabilidade da parte do “protetor”, sua função é vazia de sentido; Afinal, para que ele serve então?
b) Se é para proteger, esclarecer e ser responsável por alguém, sem ter qualquer autoridade sobre os atos dessa pessoa, então é simplesmente inviável exercer a posição de “protetor”; Afinal, não faz sentido assumir responsabilidades sobre algo o qual não se pode exercer qualquer controle;
Isso é tão somente uma questão de bom senso.
Aqui começo a tanger uma questão colocada frequentemente, sobre o Protetor sentir-se no direito de exercer autoridade sobre o protegido. Em minha opinião pessoal, isso faz sentido sim. Um papel como o de protetor é um algo muito litúrgico, e essa noção de papéis tão cristalianos não deve ser estranha para quem se considera litúrgico e aprecia essa situação.
Naturalmente que, em determinadas ocasiões, um veto da parte do Protetor pode ir contra os interesses imediatos do protegido e esse pode sentir-se contrariado. Mas é algo também do bom senso que, se é para fazer apenas o que bem entender, para que alguém procura um “protetor”, isso é, uma relação de dependência e reverência? Aquele que considera absurdo acatar ao bom senso de outrém, na figura de protetor, obviamente não deveria procurar ter um.
Evidentemente isso também aborreceria caso um pretendente a Dono fosse vetado, porque o “protetor” em seu julgamento, entende que não será bom para seu protegido – todavia seja compreensível que essa pessoa se aborreça, ela precisa ter em mente que está pisando no território de outro Top, e portanto deve ser cordial e respeitoso.
Mas a função do Protetor, assim me parece, não deve ser uma de “Dono Freelance”. Retornando à analogia do Tutor (comum antigamente na sociedade), seria de certo modo uma relação “incestuosa” caso o Protetor use a sua relativa autoridade sobre o protegido como pretexto para satisfazer-se pessoalmente de seu dependente. Entendo que a motivação válida para ser um protetor seja uma de afinidade e afeto, e de autoridade benevolente e altruísta sobre o protegido – uma relação, portanto, essencialmente assexual no sentido “egóico” da palavra.
(É um tanto complicado falar em “assexual” e BDSM na mesma frase, porque BDSM é erótico mesmo quando não é propriamente sexual – genital. O BDSM trasncende o meramente sexual, e ao mesmo tempo, é erótico em toda sua extensão, portanto quando digo “assexual” quero dizer literalmente “genital”).
Ora, se for para dar-se a esse tipo de desfrute com o protegido, que assuma-se Dono então. Em tal situação, o referido Protetor estaria abusando de sua posição, e estaria o protegido em toda razão de sentir sua confiança traída, dadas intenções mascaradas do protetor.
Mas é no momento de encontrar um Dono para seu protegido, que a função do Protetor se torna mais delicada. Após ter contribuído para a formação de um escravo, e esclarecer-lhe sobre seus deveres e qual tratamentos e considerações esperar, deve ter fim um dia o período de ensinamento, e esse escravo deve encontrar um Dono para que realize seu potencial e encontre sua satisfação. Aqui entra o duplo papel de protetor e mediador – cabe ao Protetor dialogar com possíveis futuros Donos desse escravo, e zelar para que ele esteja sendo entregue em boas mãos – Zelo é uma palavra importante para definir o caráter da atividade de Protetor.
É muito discutível a extensão do poder de veto do Protetor sobre as escolhas do escravo. Por exemplo, o Protetor não tem poder efetivo para proibir o escravo de consentir em ser propriedade de um Dominador que ele desaprove, mas em vistas disso, ele tem sim o poder de abrir mão de seu papel de Protetor, de isentar-se de seus deveres em vistas à atitude insurgente do seu protegido. Em outras palavras, é plausível que ele “lave suas mãos”, e se limite a torcer pelo melhor resultado. Tal qual filhos, protegidos podem ser bastante rebeldes, e na impossibilidade de impôr efetivamente seu ponto de vista, resta apenas entregar o ex-protegido à própria sorte.
Após toda essa extensa – e talvez pedante – meditação, se tivesse que resumir o caráter, procedimento e pertinência do papel de Protetor, eu sintetizaria dessa maneira:
O Protetor é aquele Top que se compromete a uma relação altruísta de zelo, instrução e preparação de um escravo, usando de autoridade benevolente e disponibilizando ao escravo seu conhecimento sobre as relações de Dominação e submissão, tendo o escravo nele a figura de um tutor disposto a facilitar sua incursão ou reincursão no exercício da submissão. Tal relação é, por natureza, altruísta e assexual – todavia erótica – e baseada na afinidade e afeto pelo seu protegido,e sua recompensa é a satisfação derivada do exercício de seu papel.
Para atingir estes fins lhe cabe selecionar, proteger, instruir, orientar, disciplinar verbalmente ou por quaisquer meios necessários que não atentem contra a natureza de seu papel, e não traiam a confiança que lhe foi depositada.
A esta altura está claro que o Papel de protetor se dá em relações entre Dominadores e submissos. Mais adiante darei minha explicação sobre o porquê dessa distinção.
Sobre Mentores
Terminei a seção sobre protetorados estipulando que aquela noção é mais apropriada para Dom/sub. Cabe aqui agora dar um embasamento para essa noção.
Considero que a posição de protetor não é aplicável ao caso em que um Dominador encarrega-se do esclarecimento de outro, porque entende-se que tratam-se de dois iguais, e de certo modo, duas Pessoas em pleno e semelhante potencial em se tratando de BDSM.
Considera-se para o mesmo efeito que, todavia o escravo seja dotado de uma personalidade própria como toda pessoa humana, seu lugar na liturgia é o de uma Pessoa subordinada; suas decisões, condicionadas a uma vontade superior; de modo que no esquema vertical das relações BDSM, seu status possui limitações próprias de sua condição. É evidente que essa noção é alegórica, metafórica, e válida somente no contexto lúdico da Dominação.
Entende-se aqui que diferentemente do Protetor, que tem um papel de zelar entre outras coisas (definido em profundidade anteriormente), a relação de instrução entre dois Tops é melhor entendida como a de alguém que se propõe a facilitar o desenvolvimento de um igual, tal qual um mestre aceita um discípulo, que é alguém como ele próprio, mas a quem decide doar seus conhecimentos.
Acredito que no mentorado é que se pode ver melhor a beleza da liturgia. Ao adquirir um mentor, um Dominador serve-se do conhecimento deste que lhe dá esperando apenas bom uso, mas por sua vez, enaltece aquele que aceita para si um discípulo – é notável também que isso enaltece ao discípulo, que demonstra humildade em admitir que nem tudo sabe, mas está pronto a aprender com outrém.
O papel do Mentor é um de ajudar a lapidar o talento bruto de um outro Dominador, isso é, torná-lo mais capaz de exercer a Dominação. Por essa razão, entendo que não faz sentido um Dom ter protetores, e não faz sentido um escravo ter Mentores.
Mas o quê em realidade são as obrigações mútuas entre Mentor e mentorado?
Ao Mentor, compete destinar atenção ao mentorado e sanar-lhe dúvidas, demonstrar-lhe técnicas, dar a ele um aporte conceitual, e assegurar-se de que ele tenha condições de ser um Dominador eficiente e ético.
Ao mentorado, cabe fazer o melhor uso possível do que lhe foi ensinado, honrar ao seu professor, e observar sua conduta para que essa seja a mais apropriada, e por si só exalte a figura daquele que lhe destinou tanto esforço.
Se por um lado a natureza do papel do Protetor é uma quase paternal, o papel do Mentor é de natureza fraternal, como entre um irmão mais velho e um mais novo, onde o respeito se dá de forma horizontal, e este empenha-se ativamente fazer disponível a ele sua bagagem de vivências.
De modo geral entusiasta de ambas modalidades de interação.
Cordialmente,
Senhor Coltrane
A título de notas finais, é imperioso dizer que tanto o papel de Mentor como de Protetor incorrem em grandes responsabilidades; em uma conduta quase que sacerdotal; e que requer uma fibra ética e moral obstinada e uma retidão inabalável. É obviamente claro que tais ofícios não são para qualquer um, e cabe àqueles que se confiarem ao bom senso de um Protetor ou Mentor, usarem seu bom senso na hora de aceitar alguém para essa posição, e sim, rejeitar para esse encargo aqueles que usarem essa nobre atividade para realizar intentos obscuros e reprováveis. Ao fim e ao cabo, um protegido ou mentorado é o responsável último por si e pode e deve afastar-se de pessoas que demonstrem caráter vacilante na hora de desempenhar estes papéis.
Em resumo, poucos são capazes de exercer essas atividades, mas aqueles que o são, tornam possíveis grandes e extremamente recompensadoras experiências para todos.

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