segunda-feira, 4 de abril de 2011

Ascenção

Olá, meu nome é Marco. São duas e quarenta da madrugada, e estou sentado na varanda no oitavo andar, olhando o tráfego lá embaixo. Em noites de verão a cidade se torna mormacenta, e tudo fica mais lento. Pensar faz transpirar. Pensar em algo como correr faz transpirar em bicas. Pensar em sexo é desidratação certa.

Na outra sala está Mônica. De pé, no centro da sala, os pés separados a meio metro atados a um afastador. As mãos atadas às costas, esticadas para trás, perpendiculares ao chão. Dos seus seios partem grampos, um pouco menores do que aqueles de dar carga em baterias de automóvel, e deles, um cordão se projeta para frente. Passa por uma roldana. Retorna em direção a ela, passando por baixo, por entre suas pernas, até outra roldana, na extremidade oposta da sala, e dessa roldana, atado à algema em seus pulsos.

Ela está vendada, e na boca, uma bola de borracha afivelada com uma tira de couro. Mônica baba, e treme. E transpira. Tudo transpira nessa cidade em janeiro. Seus braços tremem mais, a essa altura provavelmente com cãibra. Por causa dos grampos e das roldanas ela pode relaxar os braços somente por alguns instantes, enquanto eles tracionam os mamilos presos aos grampos, e então novamente esticar-los para que fiquem paralelos ao chão. Ou ao forro.

Mônica começa a chorar. Soluçar. E transpirar ainda mais. Por cima de meu ombro viro o rosto para vê-la, e torno a olhar para baixo. Mônica não sabe o meu nome. Nem você: apenas me chame de Marco. Quando você não é mais quem costumava ser, seu nome se torna um detalhe. Se não gostar de Marco pode me chamar de Alberto. Ou Suzana. O que lhe fizer mais feliz, não faz diferença para mim.

Para lhe explicar como eu me tornei o que me tornei, eu teria de contar a minha história inteira.

Os filósofos usam a palavra grega “metanóia” para descrever uma mudança qualitativa da mente. Na teologia, metanóia é um processo de elevação pelo arrependimento, onde naquele que se arrepende, opera-se uma mudança no espírito.

Para Jung, metanoia é quando o psiquismo, com o objetivo de curar-se, espontaneamente dissolve-se e tenta renascer em algo diferente, renovado. Isso obviamente não foi o que me aconteceu.

Viro-me novamente para olhar Mônica. Ela recita baixinho, contando. A bola em sua boca não me permite saber em que número está, mas talvez esteja se aproximando da primeira centena. Interrompe-se para soluçar, e retoma essa contagem. Talvez esteja recitando um salmo. Ou não.

Certamente não. Não um Salmo. Não Mônica.

Conhecemos-nos na internet. Ou numa livraria. Ou numa viajem.

Em realidade, eu estava em São Paulo a trabalho, e parei em uma livraria. Tomava café em um daqueles copos de isopor que liberam estrogênio quando recebem o líquido quente, enquanto lia emails no laptop. Mônica transitava entre as prateleiras, tendo sob o braço um livro de capa vermelha, de papel couchê encerado, brochura colada, não costurada.

Com a maior parte dos livros se dá como o copo de isopor. Talvez o banho que a folha de papel recebe para ficar mais branco libere também pequenas partículas de algum anestésico sexual, e ao terminar um livro, e depois muitos livros, você se encontra a cada dia, de forma química ou memética, cada vez mais próximo da castração. Sexual ou intelectual, a idéia funciona das duas maneiras.

Mônica senta-se ao mesmo balcão. Busca os óculos na bolsa, veste-os no rosto, e abre o livro em uma página com marcador de papel cartona. Viro o laptop um pouco de lado, para que não seja possível a ela ver o monitor. Ela vira o livro, pousando o antebraço na lateral, como se o tentasse esconder, e pousa a testa na ponta dos seus dedos.

Tento entrever uma página do livro, por entre a janela triangular de seu cotovelo, ombro, e ponta dos dedos sobre o qual apóia o rosto. Chame isso de diálogo se preferir, às vezes pequenas ações e reações entre estranhos são o máximo de intercâmbio que... e ela sobe os olhos.

Senta-se ereta. Rearranjo-me na cadeira. Ela inclina o livro para si. Eu tusso. Ela olha a xícara de café, e diz “sabia que café em copo de isopor tem...” eu sei. “Sim, eu sei” eu respondo.

“Prazer, Mônica.”

“Prazer, Antônio.”

Pequenas mentiras, pequenas quebras de decoro. Doses milimétricas de despudor, transformadas em hábito.

Nos próximos minutos Mônica me fala sobre o quanto gosta de ir a livrarias. Sobre como gosta de São Paulo no inverno. Sobre como gostaria de conhecer o meu estado. Sobre como está gostando de ler História de O.

Eu sorrio, com meia boca. Às vezes ergo uma sobrancelha enquanto ela fala. Às vezes esqueço de fingir que estou prestando atenção.

Mônica fala sobre como ela gosta de tomar café em livrarias. Sobre como gosta de usar óculos, e não aprecia lentes de contato. Sobre como seu ex namorado era entediante na cama.

Pequenos fatos entediantes sobre os outros. Grandes quebras de silencio, tagarelice transformada em hábito.

Mais tarde, estamos em um bar da mesma galeria. Mônica fala de como gosta de lírios. De como detesta livros psicografados. De como se considera jovem demais para se preocupar com vidas futuras.

Mônica fala de como lamenta meu segundo divórcio. De como é difícil encontrar afinidades. De como é difícil conhecer pessoas interessantes, e de como as pessoas falam demais.

Concordo.

Que diferença faria seu nome para alguém que não está de fato preocupado em lhe conhecer? Dirigimos-nos sempre uns aos outros por “você”. “Tu”, em alguns estados como o meu. Marlon Brando não precisou saber o nome de Maria Schneider em O Último Tango em Paris. Não vi o filme. Eu li sobre isso. Em alguma página. De algum livro. De alguma livraria que servia café em copos de isopor.

Mais tarde. Seis meses mais tarde, estamos em apartamento, no oitavo andar, em minha cidade. Mônica tem falado pouco desde que chegou aqui. Era para ser uma visita, depois que voltei de São Paulo.

A mala de Mônica não chegou a ser desfeita. Ela não chegou a conhecer o Parque da Redenção, e só viu as flores nas árvores do Bom Fim da janela do oitavo andar. É onde fica meu apartamento.

Eu não precisei trancar a porta.

Quando chegou na cidade, Mônica trazia consigo ainda o mesmo livro de capa vermelha, com o mesmo marcador, na mesma página. Levei-a para jantar, como seu anfitrião.

Mônica falou sobre como fazia tempo que não viajava. Sobre como era estranho estar em outro estado, jantando com alguém que mal conhecia. Sobre como sexo anal era sempre, sob qualquer ponto de vista, um ato de poder sobre o corpo de outro.

Um pouco mais tarde, e estamos em meu apartamento.

Sentamo-nos na sala, que dá para a varanda. Uma mesa de centro, um sofá e duas poltronas, e duas samambaias penduradas, em lados opostos, nas paredes da mesma sala.

A mala de Mônica está em meu carro até hoje, desde que a apanhei no aeroporto.

Tomamos algumas taças de vinho, e Mônica falava sobre como sempre fantasiava coisas que a deixariam constrangida de sequer falar. Falava sobre como ela tinha o hábito de falar demais sobre si, e sobre como tinha facilidade em conhecer pessoas.

Mônica adormeceu no sofá, e acordou nua, com os pulsos acorrentados ao pescoço. Uma das samambaias foi removida da argola de onde pendia na parede. De lá parte uma guia, até o pescoço de Mônica.

Mais tarde eu soube que Mônica não tinha reserva em hotel algum na cidade. Mônica tem falado pouco desde que chegou, a coisa de seis meses, ainda no inverno.

São três horas da manhã. Me levanto para buscar mais vinho, e no caminho retiro os grampos dos seios de Mônica, que despenca sobre mim.

Retorno à varanda, e continuo assistindo ao tráfego. Nomes não são tão importantes. Mônica me chama apenas de Senhor desde que chegou.

9 comentários:

santo disse...

As vezes eu fico muito P., porque um texto belíssimo como esse não tem sequer um comentário, um elogio, oxalá não seja o último.

Parabéns pelo texto.

§ яєßє¢α de O AMO § disse...

Olá, Sr. Coltrane,

Simplesmente ADOREI seu blogger. O texto deste post, então, é extasiante... ao ler consegui visualizar muitas cenas e a ter sensações bastante significativas. Ao final, o que encontro? Música que me agrada por demais.
Estou seguindo-O e lincando seu espaço junto ao meu.
Bjs carinhosos

Vítor Hugo Vervloet disse...

muito bom o texto

confesso que estou até aliviado, achei que nunca mais ia atualizar isto...

este blog é, sem dúvida, um manual para machos alpha

parabéns!!!

Tattourouge disse...

Excelente relato!!!

Nos faz refletir...

Bom que estejas de volta.

Sucesso!

Abraços respeitosos,

Tattourouge

Sr Coltrane disse...

@Tattourouge

Não é um relato, querida, é um conto.

pensamentosubmisso disse...

Gosto.

pµssycαt disse...

Confesso que só parei pra assistir o clipe. Uma pena que não seja com Mr. Ritchie Blackmore, mas é Perfect Strangers então tá valendo.

{layla} cadela de Dom Backo disse...

Senhor Coltrane,
Um conto, um sonho... quando comecei a ler tive que parar tudo o que fazia, mergulhando na penumbra da tua descrição. Não é belo, é mais do que isso.. é mágico.
Obrigada por postar, por produzir, e por nos deixar ler.
Respeitosamente,
{layla}_Dom Backo

Ciça disse...

Excelente ambientação. Adorei!